A primeira canção da parceria: “Como dizia o poeta…”

“Voltei da Argentina com aquela sensação gostosa de ter trabalhado com Vinicius”, relata Toquinho. “Mas não pensava que fosse trabalhar muito mais com ele.

Ainda não tinha saído nenhuma música nessa primeira viagem. Já no navio eu tinha mostrado a ele um tema que eu estava desenvolvendo. Era um tema de Albinoni, transformado em samba. Mostrei para o Vinicius no navio, ele gostou da ideia, ficou curtindo, mas não colocou letra. Isso aconteceria quase dois meses depois.

Vinicius estava casado com a baiana Gesse, que arrumou para fazermos três shows no Teatro Castro Alves, em Salvador, nos dias 6, 7 e 8 de setembro. Durante a viagem de ônibus à Bahia, Vinicius fez a letra para aquele tema. Aí começava efetivamente nossa parceria, com a música ′Como dizia o poeta…′”. Era uma época em que prevaleciam o tropicalismo, o rock, as guitarras.

A música brasileira era considerada ultrapassada. Em meio a esse cenário musical, aconteceram os três primeiros shows de Toquinho e Vinicius, com a participação de Marília Medalha, aqui no Brasil, realizados no Teatro Castro Alves, em Salvador, nos dias 6, 7 e 8 de setembro de 1970. “Nesses shows apresentamos essa nossa primeira canção e cantamos músicas antigas do Vinicius, lembra Toquinho.

“Eu tinha uma parte solando violão e cantava algumas canções minhas. No primeiro dia já lotou, um sucesso absoluto. O segundo show, do dia 7, foi dedicado aos estudantes, e eles responderam com uma ovação memorável, foi um susto, até. Era a prova de que a mocidade, apesar dos no-vos sons predominantes, nunca deixou de se prender ao que de melhor se fez depois da Bossa Nova. Já era o sinal da volta da MPB, e ninguém sabia.

toquinho-viniciusE nós constatamos isso nesses três shows do Teatro Castro Alves, quando ousamos, naquela época, antes de fazer qualquer sucesso, mostrar um samba novo, em um nível mais tradicional de ′Como dizia o poeta…′, que não dava nem ensejo para ser censurado. E ser censurado, naqueles tempos, para um determinado tipo de esquerda, era até um sinal de status. Nossa música era harmoniosa, não tinha nada para ser censurada e nem era conivente com o governo ou com o que estava acontecendo. Essas características iam contra a música da gente porque perdurava a ideia de que toda música tinha de ser contestadora, se não, era antiga ou alienada”.

Embalados por esse indício de sucesso, a Bahia cobrindo-os de bênçãos, Toquinho com o baú cheio de melodias e Vinicius sempre com aquela renovada disposição para a poesia, ah, não precisava nem de muito esforço para as músicas brotarem. Surgiram “A bênção, Bahia”, “Mais um adeus”, enquanto outros temas estavam prontos para receber letras. “Eu não imaginava que a parceria fosse tomar o impulso que tomou e chegar até onde chegou. Nem ele imaginava isso” relata Toquinho. “Eu achava que fosse fazer umas quatro ou cinco músicas com ele, e já estava de bom tamanho. Sentia uma certa insegurança, não sabia se ele ia gostar de minhas melodias. Afinal, estava dando músicas para alguém como Vinicius de Moraes, que já havia letrado coisas fantásticas e tinha na mão o parceiro que quisesse”.

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6 Respostas

  1. Yuri

    Toquinho, parabéns pelo seu trabalho…você é simplesmente genial.
    Suas musicas me inspiram muito.

    Parabéns pela carreira impecável!

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