Toquinho falando de Vinicius

Um dos motivos determinantes da consolidação rápida e consistente dessa parceria foi o fato de Toquinho e Vinicius terem se encontrado no momento mais adequado para um e outro. Antes desse encontro, sem parceiro definido, Vinicius passava por um obscuro período criativo. Foto_3Para muitos, o Poeta já ha-via chegado ao fim da linha em se tratando de composições musicais. Havia sido cassado pelo Itamaraty, o que, em contrapartida, lhe proporcionava livrar-se das amarras burocráticas. Ele estava solto para voar. Necessitava apenas de impulsos que o fizessem decolar. Um desses impulsos chegou através da mulher, a baiana Gesse. E o outro, claro, foi Toquinho. Foram fundamentais para a revitalização de Vinicius. A mulher sabia brincar de poeta com o Poeta, inserindo-o na mística descontração da Bahia e colocando-o nos braços de Mãe Menininha, que lhe tirou o medo de viajar de avião. Fechou-lhe o corpo. E Toquinho, o novo parceiro, lhe possibilitaria bater as asas para o mundo com a liberdade que ele queria naquele momento da vida. “Naquela altura, eu tinha o que o Vinicius queria: uma pessoa que tivesse disponibilidade para ficar trabalhando com ele, e que tivesse uma linguagem nova”, explica Toquinho. “Eu era totalmente disponível e motivado a ficar do lado dele. E sempre procurei fazer uma música que não fosse hermética, buscando uma simplicidade que acabou se tornando especial e me caracterizando com um estilo muito próprio dentro da música popular brasileira. Meu repertório se caracteriza pela simplicidade. Era o que Vinicius queria. Um comportamento musical ligado com a própria vida, mais solta, livre, natural. Refletia-se tudo isso, por exemplo, nas músicas infantis que fizemos, da melhor qualidade. Porque não tínhamos vergonha de nada.

toquinho-vinicius4Nosso sucesso é uma conseqüência de tudo aquilo que é feito com naturalidade. Minha convivência com Vinicius era uma festa diária. A criação musical vinha na esteira da nossa alegria, da nossa amizade, da nossa curtição com a própria música e com a vida. Há muita diferença entre o fácil e o simples. Para se atingir o simples é necessário não se ter vergonha de andar de braço dado com o lugar-comum. É o que o Vinicius fazia, tinha a coragem de ser simples. Eu aprendi com ele a enxergar isso. Fazer melodias sem arestas, que entram pelos ouvidos de uma forma natural, como andar, sem esforço para gostar. Fazíamos às vezes dois ou três sambas ao mesmo tempo. Era tudo normal. Eu não gosto muito de sol, não gosto de acordar cedo. Gosto de ficar em casa tocando violão, mesmo! Sempre gostei. E ele gostava disso também. Não representava sacrifício nenhum fazer o que a gente fazia. Eu ficava acordado até de manhã, e ele também. Porque o lance do Vinicius era curtir aquela coisinha de fazer música, a vidinha de ver a música nascer. Curtir o artesanato. Ficar fechado em casa, dois, três, quatro dias saboreando os detalhes da canção.

Depois a gente cantava, e vinha outra, e outro tema, e outra canção, e outro dia… e a vida seguia, normal e harmoniosa”. Observando hoje em Toquinho a sincronia de atitudes consigo mesmo, com a família e com os amigos; a motivação com que se entrega à profissão, sem escravizar-se a ela, torna-se inevitável indagar-se até que ponto ou a partir de que ponto Vinicius de Moraes teria contribuído para toda essa justeza existencial. “Jamais enxerguei Vinicius como um pai de postura paternal e protetora” observa Toquinho. “Mesmo porque ele não agia assim nem com os próprios filhos. A feição de pai surgia por sua grande sabedoria de vida, por saber mais do que a maioria das pessoas.

Talvez o homem de maior sabedoria de vida que eu tenha conhecido. Ao mesmo tempo, quando se via diante de uma pessoa muito simples, chegava a se emocionar até os olhos se encherem de lágrimas. De repente, esse pretenso ar paterno que ele poderia ter em relação a mim ia por água abaixo quando ele se tornava essa criatura frágil, com toda a sabedoria de poeta. Vinicius carregava dentro dele o jovem disposto e disponível à vida; que arriscava nas coisas, despojado e solto. Na nossa relação, eu era o fio-terra, quem se preocupava aqui embaixo conduzindo as coisas. E ele, o cosmonauta, o voador, que partia mesmo! Mas, por mais contro-vertido que pareça, ele foi a pessoa que me ensinou a ser profissional, a respeitar horários, pessoas e valores. Isso reflete as contradições desse grande poeta, que se debatia entre livrar-se das amarras da vida e seguir as ordens dessa coisa ilógica que é a própria vida.

Dizia que o cotidiano é a ferrugem da vida, e fazia tudo para ludibriar essa ferrugem do dia-a-dia. Mas ao mesmo tempo que odiava esse lado massacrante da vida, procurava harmonizar-se com isso tudo. Em cada gesto, em cada passo que dava, nos sentidos mais variados, buscava essa harmonia. Um homem que nunca soube viver sem poesia, e Vinicius viveu como poeta. Ser poeta é uma coisa. Mas viver como poeta é dilacerante, arrebenta o homem por dentro. Na rapidez do cotidiano quase sempre não cabe a poesia, e o Vinicius não conseguia viver longe dela. A poesia o acompanhava o tempo inteiro e ele se debatia com ela, sempre suscetível ao enfoque poético das pessoas e das coisas. Para ele, tudo era natural. Vinicius me passou todas essas variáveis humanas e, se aprendi, é porque já devia ter uma tendência para isso”.

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2 Respostas

  1. Andre Sousa

    Uma das duplas de mais felicidade na música brasileira. Sinto muito por não poder ter vivenciado esta união musical, porém é possível ouvir o trabalho deles e notar que esta parceria foi uma das mais produtivas para nossa música!
    Tive o prazer de ver alguns shows do Toquinho, infelizmente quando Vinicius morreu eu não havia nascido ainda. Em Toquinho encontra-se a sabedoria poética e musical do maior poetinha que o Brasil já teve.

    Vida longa e saúde ao Toquinho! Obrigado por existir e nos agraciar com sua música.

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